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[conto pop] dez anos entre loiras e sangue

A angústia tomava conta de Bob Dylan. Primeiro tinha sido a confusão mental que se seguiu ao lançamento de “Blonde on Blonde”. Ele sabia que jamais ia conseguir fazer algo melhor que aquilo. Ele sabia que aquele disco havia sido a soma feliz de números e acasos e um momentum peculiar. Estava claro que tudo aquilo que chamavam de contracultura ia acabar: só importava mesmo a arte que alguém talvez pudesse produzir de maneira atemporal mas sugando das veias do tempo o doce sangue de tudo o que é imperecível.

Ele tinha talento, é certo, mas teve muita sorte – e várias das mentiras que contou, nas músicas ou nas entrevistas, ou soaram como verdade ou soaram enigmáticas ou causaram estranheza suficiente para que ele fosse visto como alguém além de um simples compositor e cantor que soubesse erguer de maneira charmosa apenas uma das sobrancelhas. Ou as duas. Ou nenhumas.

Bem, a própria confusão mental, que o fez mentir mais, até mesmo sobre a qualidade de suas canções, rendeu alguns bons frutos, como “All Along the Watchtower” ou “Lay, Lady, Lay”, e, apesar do último disco conter uma grande canção, “Like a Rolling Stone”, ele tinha vergonha dele. Tanta vergonha que outro disco estava pronto e ele queria lançá-lo logo, numa desesperada tentativa de enterrar o erro do outro, aquele disco caudaloso, prolixo e metido – que ele, mais uma vez errando despropositadamente, chamou de “Self Portrait”. Ele não sabia, é claro – e não tinha como saber -, mas esse novo disco iria ser considerado um de seus piores trabalhos.

Sim, depois de quase três anos de confusão, agora era a angústia. Tinha muita gente boa aparecendo, gente realmente boa, fazendo músicas que realmente importavam. Suas mentiras poderiam não se sustentar. Ele quase emprestava mentiras de outros artistas. A capa para o novo trabalho, suavemente intitulado “Nova Manhã”, tinha sido “inspirada” na capa do disco de estreia de Leonard Cohen, “Songs”.

(Uma vez um jovem negro que carregava e afinava os trumpetes de Chet Baker disse a Dylan que o artista não devia se preocupar com a coerência e que os personagens deviam bailar dentro de uma canção como se o tempo não existisse, com classe. Dylan gostava de conselhos desse tipo. Alguém tinha dito que a capa do disco de Cohen tinha classe.)

Ele tinha visto e ouvido o disco de Cohen no apartamento de uma amiga do SoHo, uma lésbica que gostava de ser chamada de Gertrude Stein. Quase entrou em depressão. Talvez ele, Dylan, nunca fizesse nada parecido, nada tão poético. Uma “nova manhã” significava isso, para ele: a tentativa de fazer algo indelevelmente poético, como aquilo que Cohen havia feito. Mas sabia que não tinha conseguido.

Para piorar sua angústia, toda aquela sua vontade de retomar a tradição country misturando-a com o blues e alguma atitude contemporânea poética não tinha dado muito certo, apesar da bonita parceria com Johnny Cash em uma canção – e agora um “cantorzinho metido”, chamado Randy Newman, lançava um disco, “12 Songs”, e, meu Deus!, como ele queria ter feito aquele disco! Era perfeito, era todo bonito, incluindo a capa, uma capa tão perfeita, com um aparelho de TV, uma cadeira de balanço e uma cadeirinha de criança num quintal… – simbolizava tudo o que ele queria dizer. Tudo. Estava ali toda mentira.

Depois do disco de Cohen, aquele Randy Newman tinha acabado com ele. Ele se sentia tão angustiado que decidiu conversar novamente com Gertrude Stein – ela era uma boa conselheira, daquelas que respeitavam os limites e interesses dos artistas e sabia como lidar com eles – os interesses e os artistas. Entrou na água-furtada de Stein e foi se atirando no sofá amarelo que ficava no canto, ao lado da pilha de discos. Estava prestes a chorar. Stein deixou que ele se acalmasse, foi buscar algo para beberem. Dylan esticou o braço e alcançou um disco; e era o “Songs” de Cohen. Ele suspirou e ficou olhando por uns instantes a foto na capa, os olhos profundos e algo tristes do canadense. E, sem nenhum motivo, virou o álbum. Tomou um susto ao ver a contracapa, dando um pequeno grito. Seus olhos esbugalharam: contrastando com a capa sóbria estava um desenho colorido. Ali, Joana D´Arc era consumida pelas chamas. Talvez pudesse ser uma referência a uma canção sua, do “Blonde on Blonde”. Mas ele achou que fosse mais que isso: mostrava uma conexão entre eles.

(Num flash, o cantor lembrou de uma história que tinha ouvido há tempos sobre a estranha conexão entre Picasso e Modigliani, duas faces da mesma moeda, dois amigos-rivais, duas forças da natureza, dois dementes metidos no mundo sujo da arte onde as aparências valem mais que a verdade. Ou que a mentira poética.)

Dylan pulou do sofá segurando firme o álbum com as duas mãos, encarando o desenho da santa francesa. E começou a falar, falar sem parar, estabelecendo as mais estranhas linhas de ligação entre ele, o canadense, a santa francesa e também externando sua frustração por não conseguir fazer nada parecido com o que Newman estava fazendo e… Stein entrou na sala acompanhada da namorada, Alice. Alice balançou a cabeça:

- Eu já disse, Bob, você tem que saber que as coisas não giram ao seu redor.

Desesperado, Dylan gritou alto:

- Mas Alice, eu já disse que não sou um mitômano!

E saiu correndo com algumas idéias sobre o que faria quatro anos depois, em “Blood on The Tracks”.

 

mckee engraçadinho

Anotei várias frases espirituosas de McKee, mas é preciso contextualiza-las. Talvez faça isso nos próximos dias.

Mas Mckee contou três piadinhas clássicas de Hollywood. Vou contar aqui pois contei para algumas pessoas e elas não conheciam. A primeira, McKee contou como se tivesse acontecido com uma amiga, mas é uma piada que tem várias versões, com a participação de vários artistas. Pode até ser que a piada tenha acontecido de fato com a amiga de McKee e depois ganhado as variações. Mas é assim:

A amiga de McKee entra em uma sorveteria de Beverly Hills e está sendo atendida quando entra Paul Newman. A atendente alerta a moça:

- O Paul Newman entrou aqui, por favor não o aborde, ele não gosta de ser incomodado.

A mulher pensa: “Puxa, Paul Newman!”. Ela se esforça para não olhar para trás, para não dar bandeira, olha de canto para o magnético ator, paga pelo sorvete e sai da sorveteria. Lá fora, se dá conta de que não apanhou o sorvete! Pagou pelo sorvete mas não o pegou, está de mãos vazias!

Pensa: “As pessoas vivem comprando coisas e esquecendo, não há nada demais nisso, vou voltar para exigir o sorvete pelo qual paguei”.

Entra de volta na sorveteria, vê Paul Newman no canto, lambendo seu sorvete, que cara lindo, vai falar com a atendente. “A senhora pegou sim o seu sorvete!”. “Não peguei, não! Dê-me”. As duas discutiam.

Paul Newman se aproxima da amiga de McKee, toca seu ombro, ela se vira e ele conta:

“A senhora colocou o sorvete dentro da bolsa”.

Tum Tum Psssssssssss

Aí tem a piada do roteirista que não escrevia nada há muitos anos, estava desconsolado, quase jogando a toalha, quando recebe um ultimato do seu agente: ele deve escrever algo minimamente bom em uma semana senão ele já era.

O homem fica louco, mas não sai nada, ele desiste mas, no último dia, pela manhã, ele dá com um roteiro ao lado do seu computador. Será que ele mesmo escreveu aquilo durante um surto na madrugada? Lê o roteiro, ele não se lembra de ter escrito nada daquilo, mas é algo genial. Ele liga para o agente, o agente lê o roteiro e fica assombrado, leva para um estúdio, consegue um milhão de dólares pelo roteiro, o estúdio produz e o roteirista ganha um Oscar. Porra, ele é o cara mais quente em Hollywood! Mas tem que escrever outro e não consegue, está desesperado e numa outra manhã ele vê lá, ao lado do computador, outro roteiro – e é mais genial que o anterior! Ele entrega para o agente, que consegue dois milhões de dólares, o estúdio produz e ele ganha outro Oscar! Ele pode parar de escrever, pode viver com essa grana e de sua fama. Mas seria bom se encontrasse outro roteiro como aqueles, uma manhã qualquer, do lado do seu computador.

Uma madrugada, sem sono, ele vai até a cozinha para apanhar um copo d´água e vê um duende. É um duende médio, tem meio metro de altura. O duende vai até o escritório dele, sobre na poltrona com dificuldade e começa a digitar.

- Foi você!
- Ora, você quer me matar de susto!
- Foi você quem escreveu aqueles dois roteiros!
- Foi.
- Ora, você me fez rico e famoso! Devo isso tudo a você! Pode me pedir o que quiser! Quer mulheres? (o roteirista pensa que um duende talvez possa não se interessar por mulheres humanas) Quer… carros? (o roteirista pensa que o duende sequer poderia alcançar os pedais de um carro) Quer uma casa? Uma mansão? Pode pedir, peça o que quiser!
- Não…
- Eu faço questão! Você pode pedir o que quiser! Eu devo tudo, exatamente tudo o que tenho, a você. Pode pedir!
- Bem, se você está dizendo…
- Sim, posso garantir, te dou o que você quiser!
- Bom… então… eu gostaria de ter meu nome nos créditos, junto com o seu.
- Ora, seu duende filho da puta! Dê o fora daqui imediatamente seu crápula oportunista!

;>)

E agora a versão do diretor, que não dirige um bom filme há anos e, inesperadamente, recebe a visita do anjo Gabriel.

- Sou o Anjo Gabriel, enviado de Deus.
- Puta que pariu!
- Olha a boca!
- Vou morrer?
- Não. Deus me mandou pois precisa de você.
- De mim?
- Isso. Ele gosta dos seus filmes. Especialmente dos primeiros, são engraçados.
- É?
- Sim, Deus escreveu um roteiro e quer que você dirija.
- Caralho!
- Olha a boca! É um roteiro muito bom, quem ajudou Deus foi Shakespeare.
- Uau, roteiro de Deus e Shakespeare!
- Beethoven está compondo a trilha sonora.
- Beethoven?
- O storyboard está sendo feito com muito carinho pelo Michelângelo.
- O da Capela Sistina?
- É.
- Puta que pariu!
- Estamos negociando com Picasso, para que ele faça a direção de arte…
- Uau!
- E então? Você topa?
- Claro. Claro que topo!
- Só tem um probleminha.
- Qual?
- Deus tem essa namoradinha…

o seminário STORY, de robert mckee – emoções & impressões

Robert Mckee parece ter saído de “Bonanza”, aquele seriado de faroeste que teve uns episódios dirigidos por Robert Altman. É o típico americano branco e corpulento, de queixos quadrados e olhos claros. Os cabelos, hoje, são brancos – mas podemos imaginá-los bem amarelos. Não eram: durante o seminário contou que eram vermelhos como fogo. Mckee era um irlandezinho marrento que viu, muito jovem, todos os filmes que pôde do mesmo modo que o nosso José Mojica Marins, o Zé do Caixão: entrando escondido no cinema, assistindo a qualquer coisa, maravilhado, sem grandes julgamentos. Depois infiltrou-se em movimentos estudantis, viu filmes, puxou fumo, viu filmes, foi pra Hollywood, viu filmes, escreveu roteiros, viu filmes, trabalhou como analista de roteiros, viu filmes, viu filmes, viu filmes. Num daqueles instantes de fala eloquente, durante o seminário, ele disse, categórico, de maneira a não se duvidar: “Eu vi mais filmes que todos vocês juntos!”. Era uma boa sala de 250 roteiristas, selecionados e convidados da Globosat. Tinha gente ali que já viu muitos filmes, como eu. Mas era bem óbvio que Mckee tinha razão; ninguém discutiria.

Além de ter visto filmes, Mckee tem uma qualidade que jamais vi, quando falava sobre eles: ele não só lembra, do alto dos seus 72 anos, do nome do ator mas também do nome do personagem nos filmes. Se você está falando de “Guerra nas Estrelas” é fácil citar Luke Skywalker, mas nem todos se lembram de Mark Hamil. Por outro lado, se você está falando de um filme com Clint Eastwood que não seja os da série Dirty Harry, é provável que você diga: “… aí o personagem de Clint sacou sua arma…”. Pois Mckee diz sempre o nome do personagem e do ator, o que demonstra uma capacidade de memória extraordinária. Ele não só viu os filmes, mas os decorou. Cenas e nomes e enquadramentos e ritmos. É um sujeito bem estranho, esse Mckee. E eu pensei que fosse um cinéfilo.

Especialista supremo em roteiros – e ele mesmo ex-ator -, Mckee fez uma apresentação em quatro dias e quatro atos. Ele apareceu, no primeiro dia, como um velho resmungão dando meia hora de instruções detalhadas sobre o que se podia ou não fazer durante o seminário. Nada de celular ou torpedos, nada de dispersões, saídas para o coffee-break ou para o almoço com horário hiper-controlado… No segundo dia permitiu fotos aos que ousaram, contou algumas piadas, mostrou-se humano. No terceiro ato elevou a atuação para o nível da performance pura, contando, de maneira envolvente, trechos inteiros de filmes, alguns da maneira como são, não da maneira como aparecem na tela. Foi o caso de “Carnal Knowledge”, que ele contou começando pelo final como se fosse o começo mas, se você pensar bem, aquele final é mesmo o começo! Passeou por “Chinatown” como um pâtissière ensina a fazer um simples patê de alho. No quarto dia, explicou “Casablanca” com um nível de sofisticação e conhecimento como nunca vi; cantou “As Times Goes By” à capela; mostrou-se humano, um velho preocupado com a finitude; citou Joseph Campbell (eu esperava por isso, aconteceu só no último momento) com o Poder do Mito, o percurso do herói. Passou de velho rabugento a herói de sua própria vida: alguém que esteve do outro lado da Floresta Negra e voltou para contar a experiência. Foi isso, esse seminário.

Vista do Mckee de onde eu estava

Agora vou pontuar algumas coisas que disse o velho Yoda, digo, Mckee. Terminada a oblação sobre o que era proibido, Mckee informou que tinha posições controversas sobre alguns assuntos como política, religião e relacionamentos. Considera-se de centro-esquerda, contou sobre uma triste e equivocada constatação que vem crescendo como verdade inquestionável, especialmente nos EUA, de que “os homens não entendem nada, as mulheres entendem tudo”. Disse que é comum que fale palavrões e blasfeme, durante suas falas: as pessoas não devem se sentir ofendidas. E resumiu: “Escrever é para adultos”.

Falou brevemente, então, sobre a atual situação do cinema americano. Teve um tom de crítica e apontou para uma chatice geral e acachapante. Para minha satisfação (uma delas) disse que o melhor filme do ano passado é “Indomável Sonhadora”, que concorre ao Oscar mas, segundo ele, não vai levar. “Qual o sentido de fazer mais um filme sobre Lincoln? Fazer Day-Lewis brilhar?”. Ele não gosta de Spielberg, parece que é rixa antiga. Eu mesmo me pergunto: “Qual o sentido de mais uma adaptação de Os Miseráveis? Mostrar os dentes perfeitos de Anne Hathaway?”.

“Um roteiro de sucesso”, diz ele, “é o final de um trabalho árduo que reúne uma série de condições e qualidades”.

Humilde, diz que não sabe como fazer: “Se soubesse escrever um roteiro de sucesso eu não estaria aqui”. “O escritor precisa ter algo a dizer e isso é, geralmente, um insight”, explica. Isso não se ensina.

Ele conhece uns truques e um padrão de filmes que se tornaram clássicos e que são, de maneira unânime, excelentes. É o que pretende ensinar. Mas o padrão americano, não o europeu ou o inglês: “Eu adoro os filmes franceses, mas puxa… são franceses! Os franceses são… pretensiosos. De coração!”.

Minha foto "francesa", d´auteur, de Mckee.

Minha foto “francesa”, d´auteur, de Mckee.

Mckee conta que está interessado na ficção. “Mesmo escritores que escrevem sua própria história estão fazendo ficção. E eu tenho pouca paciência para esses escritores: eles parecem sempre muito preocupados consigo”. Concordo plenamente. E continua: “Pessoas jovens querem escrever sobre si porque não conhecem mais nada nem ninguém. O problema é que não conhecem nem a si”. E complementa, de maneira exemplar: “Bons escritores escrevem suas biografias no final da vida e algumas são boas. As melhores são aquelas que são os últimos livros de seus escritores”.

Ainda sobre literatura, desenvolve o tema da sensibilidade: “O bom escritor deve ter um lado masculino e um lado feminino. E dois talentos: o literário e o talento para a história. O literário transforma a linguagem comum para outra, mais elevada. O talento para a história usa essa linguagem para transformar o que se quer transmitir em ação e ritmo. Muitos têm talento literário, mas poucos têm uma boa história. Isso é cada vez mais raro”.

“O efeito de uma história lindamente contada é que você entende tudo de maneira total, sem didatismo, sem invenções”.
Como o escritor deve, então, começar o seu trabalho? Primeiro, deve saber onde a história está ambientada, no espaço-tempo. Ele deve conhecer o lugar (o mundo onde a história se desenvolve) como Deus conhece o mundo que criou. Ele deve saber em que tempo histórico no qual a história se passa – e a duração da história, por quanto tempo ela vai se desenvolver. É de Mckee a clássica frase: “Elimine as partes chatas”; nenhuma audiência quer saber das partes chatas, do comum: “Se você tem 120 minutos para contar uma história concentre-se no que realmente importa. E lembre-se de guardar o melhor da história para o final”.

“Toda história deve ter uma IDÉIA GOVERNANTE, que muitos preferem chamar de TEMA. É o que dirige o tom da história. Definida a IDÉIA GOVERNANTE é bom que se conheça as convenções deste tipo de história – ou para não repetir os clichês ou para desconstruí-los. Assim, a história deve ser contada sem grandes explicações, de maneira natural, de preferência sem voice over, sem didatismo, respeitando a inteligência do espectador”.

E diz que gostou do brasileiro “O Homem do Ano” mas… “que porra era aquela de voice over me dizendo tudo o que eu estava vendo?”.

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No segundo dia de seminário, Mckee chegou meio abatido, perguntando se todos tinham dormido bem. Contou seu método para dormir: alguns martinis com vodka, um comprimido de melatonina e um sonífero chamado Night Nurse. Mas naquela noite nem essa sequencia havia funcionado. Achei que ele não fosse aguentar 8 horas em cima de um palco como no dia anterior. Mas me surpreendi com a vitalidade do homem: ele falou 8 horas por dia durante 4 dias – isso não é para qualquer um.

Entramos então no conceito de três tipos de história: a idealista, a pessimista e a irônica. Na primeira, o bem vence o mal; na segunda, a história expressa a vida como ela é, e não como gostaríamos que fosse; a terceira caminha para a dúvida, para a dúvida, para questões que podem ficar abertas ou, como diz ele, são “filmes do Woody Allen”. Hehehe.

Ao falar sobre os tipos de filme e classificar o filme pessimista como realista, Mckee expressou um pouco sobre a sua visão de mundo e sobre o fazer artístico. “Escrever é trabalhar na solidão, mas é preciso que haja vivência e relacionamentos, que o escritor saiba sobre o máximo de coisas que puder, especialmente se forem relacionadas à sua ideia governante. A natureza humana não é nada bonita e a escrita conserta umas coisas. A escrita explora a vida, a história vai dizer qual o significado dela. Muitas vezes uma história tem um começo brilhante mas um final decepcionante; o problema não é começar, o problema é terminar uma história de maneira brilhante. Para ser realmente boa, uma história deve causar no leitor ou conforto (prazer, satisfação…) ou desconforto (terror, insatisfação, choque…)”.

“São necessários dez anos de fracasso para se dominar uma arte. Depois mais dez anos para se produzir algo realmente bom. Você está disposto a passar vinte anos fazendo isso? Está disposto a sacrificar família e amigos?”

Entramos então na parte sobre composição de personagens e foi uma explanação muito boa e interessante, bastante fiel ao conceito de seu livro-manual “Story”. Basicamente: são raros os personagens realmente fortes no cinema, é bastante difícil escrever um personagem realmente bom (no sentido do personagem ser formidável enquanto caractere, não bondoso). “Na falta de bons personagens muitos diretores tentam malabarismos para esconder a história ruim, o fiapo de drama, os péssimos personagens. Alguns desses diretores de filmes de arte são só crianças mostrando que podem quebrar brinquedos. Mas não criam nada de novo quebrando aquilo. Aristóteles já disse: quem não tem uma boa história, monta um espetáculo”.

Isso serve também para a literatura, penso eu. O camarada não tem uma boa história, mas quer escrever um livro. Ele leu vários livros, leu o “Ulysses” do Joyce, leu Beckett, ora, ele pode juntar 30 mil palavras e escrever um livro. E escreve aquilo com tanto estilo e expressão, com tantas palavras bonitas, citando tantos artistas, com tanto verniz de sofisticação que as pessoas acabam achando que aquilo é mesmo literatura. No final, é só uma coisa bem fácil de se fazer.

“Escrever só se justifica se for pelo amor de contar boas histórias”.

Depois de escrever ̩ preciso editar. Com meu editor, o querido Hugo Gon̤alves РFoto de Julia Michaels.

“Os franceses inventaram isso de cinema de ‘auteur’ – é uma grande besteira. Autor é aquele que escreve com autoridade. Se ele mesmo dirigir aquilo que escreveu e aquilo for realmente bom e tiver força, pode ser chamado de cinema de autor”.

Na volta para a segunda parte do dia, Mckee falou sobre a vida nos EUA, foi bastante divertido, contou algumas piadas*. “Nos EUA todos odeiam todos. Na Europa os franceses odeiam os italianos, os espanhóis odeiam os portugueses e todos odeiam os alemães. Mas nos EUA todos odeiam todos, é algo interessante”. “Nos EUA um mendigo ganha cerca de 35 mil dólares por ano, sem impostos, que é mais ou menos o que ganha o trabalhador, abatendo seus impostos”.

Voltamos ao roteiro. “Escrever boas histórias de maneira profissional é a coisa mais difícil do mundo. Já tive neurocirurgiões em meus cursos, médicos que fazem operações dificílimas e todos dizem que escrever um bom roteiro é ainda mais difícil. É que não basta o talento e o esforço, é preciso algo mais, é preciso insight”.

Segundo ele, a revelação de Darth Vader para Luke Skywalker é o maior insight da história do cinema. Toda força da história se revela ali, você revê todo filme anterior em sua mente naquele instante, sua própria vida é transportada para o filme.

E vamos todos embora pensando se nossas histórias têm insights que ao menos se aproximam da revelação de Darth Vader ou ao menos da revelação de Faye Dunaway em “Chinatown”. Vamos embora todos meio desolados.

No terceiro dia Mckee começou dizendo que só existem duas sensações: prazer e dor. Essas sensações devem marcar os personagens e serão ressoadas no público. A dinâmica emocional dos personagens é o que leva a história adiante. “Emoções são experiências dinâmicas”.

“Veja ‘O Silêncio dos Inocentes’: a gente vê o Anthony Hopkins como Hannibal Lecter, que é um cavalheiro, e dizemos: ‘e daí que ele come pessoas? Deve ter coisas piores que isso!’, ou então: ‘se eu fosse um canibal-serial-killer eu queria ser como ele!’. Isso é empatia, identificação emocional. É um grande personagem”.

Emoções dinâmicas; personagens fortes, expostos ao longo da história e não de maneira didática: isso é o que cria tensão dramática. E, por favor, não jogue coincidências dentro da história. Coincidência é uma falha do roteiro.

“Embora a vida tenha inúmeras coincidências, algumas inacreditáveis, elas não cabem em um roteiro. Uma boa história não deve ter uma coincidência sequer. É comum que uma grande coincidência aconteça para salvar o final de um filme. É o que chamamos de ‘Deus Ex-Machina’ e isso pode até satisfazer a plateia naquele momento mas destrói o filme como um todo, a posteriori”.

Além do que é mostrado, o texto deve ter um subtexto e os personagens devem dizer o que pensam também através de ações. Devemos saber o que ocorre dentro dos personagens, abaixo da superfície da história. Isso é difícil. “Você, enquanto está escrevendo, deve se perguntar o que a personagem quer. Para além da sua primeira resposta deve existir a resposta REAL do personagem, que está em seu subconsciente”. E é importante que os personagens não sejam planos, que tenham qualidades e defeitos. “Ame os personagens. Pensar em um ator que tenha a physique du role do personagem pode ajudar”.

Falando sobre defeitos e qualidades, Mckee se torna mais humano e vamos embora sabendo que os americanos se odeiam mas têm também suas qualidades.

No quarto dia, o professor fala um pouco sobre “escrever para a TV”.

“Não se pode fazer poesia. As cenas devem ser descritas de maneira mais direta possível. Não use metáforas, não indique movimentos de câmera. Pense em ‘sistemas de imagens’ para dar coerência ao roteiro”. Sistemas de imagens, segundo sua explicação anterior, eram imagens ou conceitos que se repetiam em cenas, dando significados para o conjunto, criando possibilidades de leituras do subtexto. Esse conceito está em “Story”.

E então, Mckee fez aquela sublime leitura de seis horas de “Casablanca”, clássico de Michael Curtiz, parando cena por cena, apontando os exemplos do que falou nos três dias anteriores. Foi de ficar de boca aberta.

Ao final, ele perguntou sobre o que era “Casablanca”. As pessoas diziam que era sobre amor, lealdade, amizade… Ele disse que, para ele, o filme falava sobre O Tempo – e isso estava bastante claro na música tema, “As Times Goes By”. E então cantou a letra toda da música, sendo aplaudido ao final.

Um aplauso ao espetáculo para o homem que explicou a todos como o espetáculo funciona.

*as piadas virão num próximo post.
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10 filmes FODAS de diretores que só fizeram ESSE filme

Sempre adorei isso: descobrir um filme de um diretor que nunca mais fez nada, só mesmo aquele. Alguns são uma merda: o cara viu que não devia mexer com cinema e foi fazer qualquer outra coisa. Mas tem alguns que faz a gente pensar sobre o porquê do diretor ter parado. Abaixo estão, por ordem de preferência, os filmes que mais gosto. A lista é para Daniel Martins, diretor de teatro, e Juliana Andrikonis, atriz, que estreiam no domingo (dia 04/11, 19h30, no Teatro Vitória, em Limeira, grátis) a versão deles para “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby. Num papo recente, joguei o desafio de um Top Five de “filmes únicos de diretores que não fizeram mais nada depois”. Eles gaguejaram. Mas eu estava em meu domínio. Hehehe. O interessante da lista abaixo é que os filmes podem ser encontrados facilmente nos torrents da vida.

Electra Glide in Blue (1973) – James William Guercio fez um filmaço com o Robert Blake fazendo um policial baixinho e marrento numa moto envenenada. Guercio largou o cinema, esse é seu único filme, para montar a banda Chicago. Cruzes. 7,1 no IMDB.

Morto ao Chegar (1988) – filmaço da dupla de diretores de videoclipes Annabel Jankel e Rocky Morton. Denis Quaid e Meg Ryan fazem o casal numa trama que se desenvolve dentro de um campus e envolve a apropriação de um romance. A dupla dirigiu depois a adaptação de Super Mario Bros, uma porcaria; e Jankel fez um interessante telefilme chamado Skellig, com Tim Roth fazendo um impressionante anjo fodido. 6,0 no IMDB.

Phase IV (1974) – filmaço do maior cartazista de Hollywood de todos os tempos, Saul Bass. Esse é seu único longa. Conta a história de um ataque de formigas a uma base de pesquisa. Não ria: é sinistro. 6,5 no IMDB.

Johnny vai à Guerra (1971) – filmaço do premiado roteirista Dalton Trumbo. Só rodou esse, baseado em seu próprio livro. Conta a história de Johnny, que volta da guerra numa caixa. Porrada. 7,8 no IMDB.

Homeboy – Chance de Vencer (1988) – ótimo filme do premiado diretor de fotografia Michael Seresin, com roteiro de Mickey Rourke, que faz o papel principal. E tem Christopher Walken. Incrível que quase ninguém tenha citado esse filme quando saiu O Lutador, que deu uma indicação ao Oscar pro Rourke. 5,7 no IMDB

A Face Oculta (1961) – Único filme de Marlon Brando, trata-se de um faroeste com tintas existencialistas. É acima da média e tem ótima fotografia. 7,1 no IMDB

Comboio do Terror (1986) – sensacional filme trash típico dos anos 80 dirigido por Stephen King, sim, ele mesmo. Foi sua única investida atrás das câmeras e foi bem legal. Um cometa passa pela Terra e objetos elétricos e mecânicos ganham vida. Meda! 5,0 no IMDB

Mensageiro do Diabo (1955) – um suspense realmente clássico, dirigido pelo ator Charles Laughton, tem a soberba atuação de Robert Mitchum como um fanático religioso às voltas com duas crianças. Tenso. 8.2 no IMDB

Rosencrantz & Guildenstern estão Mortos (1990) – único filme dirigido pelo dramaturgo e roteirista Tom Stoppard, usa dois personagens de Hamlet, de Shakespeare, para falar sobre relações mais profundas entre a História e o filme, que é baseado em uma peça dele, num exercício de metalinguagem. 7,5 no IMDB

Primer (2004) – maluquice sensacional dirigida por um jovem judeu chamado Shane Carruth, mostra um grupo de nerds geniais que desenvolvem uma máquina do tempo numa garagem e começa a usá-la para ganhar dinheiro na Bolsa de Valores. Mas a ambição é uma merda. Dizem que o diretor está em um novo projeto, vamos ver. 6,9 no IMDB.

agenda

Sábado, dia 16/03, estarei no Sindicato do Chopp, em Copacabana, Rio de Janeiro, para encontrar amigos.

Domingo, dia 17/03, participo da Master Class com Anthony Zuiker, de CSI, no Othon Palace Copacabana, Rio de Janeiro, dentro dos treinamentos para novos roteiristas da Globosat.

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Renzo, Uma Perda Irreparável

(Texto meu publicado ontem, 13/09, no jornal O Liberal, de Americana)

A morte do professor Renzo Camargo por suposto erro médico, ocorrida no dia 2 de Setembro, ganhou, com razão, destaque na mídia. É inconcebível que mortes assim aconteçam ainda. Mas não quero falar sobre esse trágico acontecimento. Renzo era meu tio. Mas era muito mais que isso.

É fácil para um sobrinho escritor tecer loas para um tio morto. Aliás, é fácil glorificar mortos, coisa que a História faz com frequência, muitas vezes com canalhas. Não é o caso aqui. Renzo era uma pessoa especial para todos que o conheceram, seja ao longo de vários anos ou apenas por alguns minutos: uma dessas pessoas que trazem esperança ao ser humano.

Mas agora ele se foi. Fica a saudade, fica o sentimento de impotência de não ser possível reverter o que foi aconteceu. É difícil para mim, sobrinho-admirador, encarar essa perda. Só não é mais difícil porque não estou sozinho: Renzo deixou uma multidão de órfãos: órfãos-amigos, órfãos-alunos, órfãos-parentes. A sensação é mesmo de orfandade, pois a relação que Renzo tinha com as pessoas não era de amizade, de professor-aluno ou de parente: a relação que Renzo tinha com as pessoas era de Pai. Ele era paternal e atencioso com todos, indistintamente. E o melhor pai que alguém poderia ter, essa é a certeza de todos e ainda mais de Lívia, a filha carnal, de 16 anos, que agora é minha irmãzinha mais jovem.

Culto e inteligente; amante das artes, sempre pronto a nos indicar um livro ou um filme; disposto sempre a brincar com as crianças, mesmo as menores, a fazer palhaçadas, a gargalhar com elas; mestre disponível, não deixava de atender os alunos, não deixava de comparecer às festas, a se divertir com eles, a amá-los. Renzo tinha ouvidos sempre prontos a escutar desabafos e a aconselhar – ou calar, quando conselhos não resolvessem -; uma pessoa como não se vê por aí. Quem o conheceu sabe, quem não o conheceu já não pode mais.

Nesse sentido, tenho sorte de tê-lo tido por perto por muitos anos. E as centenas de alunos que estiveram em seu funeral também. Os alunos se reunindo para juntar dinheiro para comprar flores, todos aos prantos, é uma cena que não me sairá da memória jamais.

Vai em paz, Renzo, para onde quer que seja. Nós, aqui, estaremos sempre um pouco menos felizes sem a tua presença – ainda que satisfeitos de tê-lo conhecido e estado contigo. Teve gente que não teve essa sorte que tivemos. A eternidade, agora, é a nossa memória.

Laurinha, a santa-puta do Mercadão.

Laurinha era uma puta lá da Osório Matos, perto do Mercadão. E se gabava de não ter buceta. Ela tinha nascido sem a coisa. No bar do Arlindo, uma vez, um cara metido a doutor explicou que os lábios da buceta eram colados, não tinha buraco. Tinha o buraquinho de cima, o buraquinho de mijar, mas não o buraco maior, o de enfiar. E de sair bebê.

Mesmo sem buraco, a Laurinha era conhecida e bem procurada por ali. Orgulhosa do trabalho, era uma chupada boa e barata. Dentes lindos, dava vontade de beijar. Mas a gente não podia pensar nos paus que ela já tinha chupado, senão perdia a vontade. Ela gostava de chupar e de beijar também, dizia que gozava assim, já que não tinha o buraco certo pra isso. Por vinte, você tinha uma chupada bem animada, com direito a olhos revirados da Laurinha. E depois ela sorria, aqueles dentes branquinhos, a boca esporreada. Se fosse para beijar, tinha que ser antes.

Tinha também o outro buraco, o de trás, mas a Laurinha não gostava de dar. Era alguma coisa de trauma. Se a oferta fosse boa, tipo cinqüentão, ela topava – mas o cliente tinha que levar lubrificante. Nada de cuspe, lubrificante profissional. Tinha bunda bonita, a Laurinha, mas se o sujeito quisesse uma boa gozada não tinha porque querer meter no rabo dela: a boca era o suficiente. Acontece que algumas pessoas contratavam o rabo só para dar uma olhada na buceta, essa que não existia. E para contar depois para os amigos.

Eu nunca tive cinqüentão para gastar com isso, nunca tive essa curiosidade. O Jorge, que trabalhava no posto de gasolina, foi conferir e me explicou, parece que a zona do agrião, sabe?, a partezinha entre a buceta e o cu?, se estendia até o buraquinho de mijar – e aí começavam os pelos. Um troço esquisito que só.

O Jorge, inclusive, se apaixonou pela Laurinha depois que lhe comeu o botão. Dizia que foram os melhores setenta reais já gastos na vida: boquete e enrabada na Laurinha, quarenta minutos no motel do Januário, ali na Lavapés. Ele insistiu nela durante um tempo, ela fugia porque dizia que ele fedia gasolina. Gente boa e cara sério, o Jorge, morreu atropelado uns meses depois.

A Laurinha não tinha trinta anos, embora parecesse mais. Mas era bonita, baixinha, magra, por isso era chamada no diminutivo. E era simpática, não deixava de falar com ninguém. Foi assim que deu confiança para esse tal Semente, sujeito estranho e sem nome. Ele chegou na pousada do seu Guilherme, ali na Campos Elíseos, e disse que queria ficar uma semana, pagava adiantado, mas não queria registro nem ia dar nome verdadeiro. O seu Guilherme aceitou, claro. Na mesma noite foi beber no bar do Arlindo, se apresentando como Semente. Todo mundo respeitou.

Bar é como coração de mãe, ali ninguém tem defeito. O tal Semente fez mistério sobre sua origem e seu destino, disse que ia ficar um tempo por ali e depois ia seguir viagem. Contou que tinha mais de vinte filhos espalhados pelo Brasil, coisa que ninguém acreditou. Devia ter uns quarenta anos, mas o rosto era bem marcado, com cicatrizes diversas na face e nos braços. Também lhe faltavam alguns dentes. Não era forte nem fraco, mas falava alto e se impunha. Pagou algumas rodadas e fez amizade de bar.

Foi só na terceira ou quarta noite que Semente quis saber das meninas da região. Qual valia a pena? Quanto custava? Dava pra levar na pousada do seu Guilherme?

Não, o pessoal explicou. A mulher do seu Guilherme expulsa quem leva biscate pra lá. Mas deram as dicas, orientaram direitinho o Semente sobre o quem é quem das esquinas do Mercadão. Aí alguém contou a história da Laurinha, a puta sem buceta.

Os olhos de Semente brilharam e ele só disse uma coisa, pelo que me lembro: “Eu já rodei esse mundo de meu Deus e nunca vi bicho fêmea sem buceta, essa eu pago pra conferir!”.

Uns dias antes, tinha acontecido um debate caloroso no bar. O Bill Clinton tinha aparecido na TV para pedir desculpa pela estagiária que havia lhe chupado o pau. Foi o Onofre, evangélico que paga o dízimo toda vez que vai tomar o trago, deitando um gole no chão, quem levantou a polêmica: boquete não é traição. E nem pecado, segundo ele. O bar veio abaixo.

Alguém vaticinou: então a Laurinha não é puta! Houve quem dissesse, um pouco para provocar o Onofre, que a Laurinha era até uma santa. Dentro daquele tipo de lógica específica, que só pode ser observada dentro de um bar como o do seu Arlindo, a estagiária Monica e a puta Laurinha, castas em suas bucetas, eram como aquelas crentes que preferem ser enrabadas e permanecer seladinhas para o marido, putas-santas de algum doce-lar cristão. O Onofre, depois de ter pagado vários dízimos e com o nariz bem vermelho de goró, levantou inflamado e citou trechos da Bíblia, para avalizar sua teoria, Isaias, Jeremias, Sofonias, capítulo tal, versículo tal, boquete é de Deus, a bucetinha é só pra ter filho. Irritado com a discussão, o Paulão Correa, taxista marrento, mandou: “Ô, Onofre, já que boquete não é pecado manda sua mulher vir chupar isso aqui!”. E tirou a cabeça da rola de fora do zíper. O povo riu.

Esse assunto tinha voltado com a curiosidade do tal Semente a respeito de Laurinha. O forasteiro deu sua opinião: sem buceta, a puta não devia se sentir mulher – e nem puta! Onde já se viu um pedreiro sem pá de cimento? Um marceneiro sem serrote? Um borracheiro sem chave de roda?

Fazia sentido. Não dormi direito aquela noite, pensando nisso. Imaginei não ter pinto. Devia ser um troço terrível.
Na noite seguinte ninguém viu o Semente. Tava um frio dos diabos e todo mundo se mandou logo pra casa. Foi só na manhã seguinte que a notícia se espalhou: a Laurinha tinha morrido. Foi o empregado do Torres, dono do Desejos, motel muquifento na baixada do Mercado, quem encontrou o corpo no quarto, depois que o homem que estava com ela fugiu. Ela tinha um canivete enfiado lá. Na buceta que não havia.

Não foi difícil deduzir que tinha sido o Semente. Mas ficamos todos perguntando por quê.

Alguém sugeriu que ele quisesse fazer um favor a Laurinha, abrindo-lhe o buraco, tornando-a mulher de fato. Outro achou que, em sua sanha de garanhão, Semente não tivesse ficado satisfeito com o boquete e não quisesse comer o rabo da menina, decidindo criar o seu próprio buraco. Talvez ele quisesse ser o primeiro, aquele que iria desvirginar a mulher mais intocada que ele jamais havia tido.

Ninguém sabe o que aconteceu naquele quarto, só o Semente. A polícia o procurou por uns dias, mas ele nunca foi encontrado. Também não acharam a família da Laurinha e ela foi enterrada num buraco da prefeitura, no Cemitério da Saudade. Muita gente vai até lá rezar por ela e dizem até que já fez milagre.

Um dia um jornalista apareceu no bar para saber mais sobre a história, mas todo mundo desconversou. Ele queria saber detalhes da Laurinha, disse que pensavam até em desenterrar a moça para pesquisar a anatomia dela. Foi o que o jornalista disse. Naquela noite sonhei que tinham feito um filme com a história e o Selton Mello fazia o meu papel.

No outro dia, acordei pensando: coitada da Laurinha. Gente boa de menina, uns dentes lindos. Puta porque não tinha estudo nem dinheiro. Morta porque não tinha buceta. Depois de morta, talvez ainda quisessem perturbá-la. Essa vida é mesmo uma merda, a gente não pode ter um único defeito.

[O conto que eu NÃO MANDEI para a GRANTA, afinal sou de 1970 e só aceitavam contos de jovens]

Literatura Virtual Рum debate, considera̵̤es e a viagem a BH

Alex Castro foi convidado para um debate sobre Literatura Virtual em Belo Horizonte e me indicou. Foram convidados também Wander Mello Miranda e Ana Elisa Ribeiro. Não tinha idéia de como seria o evento. No aeroporto escrevi o texto abaixo, que acabei não lendo no evento, já que a dinâmica foi de perguntas-respostas, inclusive entre os convidados. Publico o que escrevi sobre o tema e, depois, as considerações sobre o evento e outras sobre o assunto.

Em princípio, quando se fala em “literatura virtual” estamos falando de dois tipos de suporte: a internet e o e-book. A literatura pode ser feita na internet em sites, blogs, redes sociais… O e-book é um livro virtual para ser baixado da internet para o computador, tablets, e-readers, celulares.

A literatura de internet sofre de uma “permanência incômoda”.
A literatura nos e-books sofre de uma “possível impermanência incômoda”.

Explicarei, mas antes uma historinha.

Quando eu comecei a escrever até as máquinas de escrever eram caras, então escrevia a mão. No final de semana, meu pai levava a máquina de escrever do escritório para casa. Eu datilografava meus poemas, às vezes fazia várias cópias do mesmo poema, para distribuir depois entre parentes e amigos. Acontecia uma coisa interessante nessas cópias: elas apresentavam algumas diferenças. Conforme eu ia copiando, tinha alguma outra idéia, trocava uma palavra ou até uma frase, assim o mesmo poema tinha várias versões. Gosto de imaginar que as últimas versões deviam ser melhor que as primeiras – embora eu saiba, com toda certeza, hoje, que ambas eram definitivamente horríveis.

Algumas vezes, por erro de digitação (palavra que não existia na época – ou se existia significa coisa diferente do que temos hoje) um poema ou outro saía com uma configuração diferente: ao invés de uma vírgula, por exemplo, eu digitava um ponto – e assim ficava, para não gastar ainda mais tinta e papel. Dessa maneira, até a própria forma do poema ficava diferente, já que num erro crasso e eu enchia aquela palavra com xizinhos por cima ou mesmo rabiscava com caneta.

Isso foi antes da popularização das máquinas de fotocópia, quando eu datilografava uma vez e depois tirava a famosa Xerox.

Em 1989 eu trabalhava no Unibanco e foram abertas as inscrições para o primeiro prêmio Nestlé de Literatura. Você tinha que inscrever sua obra que devia ter pelo menos 80 páginas datilografadas em espaço 2, em folha A4, em seis vias. Depois tinha que enviar os volumes em separado, com aviso de recebimento. Queria inscrever meus poemas, mas não teria dinheiro para tanta Xerox e tantos avisos de recebimento. Assim, escrevi um pedido de patrocínio para Walter Moreira Salles – o pai do Waltinho, dono do Unibanco. E ele bancou minha participação na Bienal. Eu tinha 19 anos.

Inscrevi três livros de poesia, cada um com cerca de 100 páginas. Estamos falando de mais de 1.800 páginas, 18 avisos de recebimento. Isso tudo, hoje, ficaria em cerca de 300 reais. Na época, era bem mais, uma pequena fortuna.

Pela graça do Nosso Senhor Jesus Cristo não ganhei nenhum prêmio. Ainda bem, ou eu poderia ser um desses poetas chatos & quarentões que andam por aí.

O mais impressionante é que eles devolveram esses volumes depois. Era um calhamaço monstruoso. Durante um tempo, guardei aquilo. Depois joguei fora. Esses livros se perderam, para minha sorte.

Conto essa historinha para assinalar o que é, ao meu ver, a principal característica da literatura virtual que se pratica na internet: uma permanência incômoda. Você publica algo e é bem certo que naquele momento você acha aquilo incrível e… Depois não dá para apagar. Quer dizer, dá: mas alguém já vai ter lido, copiado, salvo, aquilo está indelével no seu currículo.

Boa parte dos grandes escritores, de Shakespeare a Edgar Allan Poe, de Kafka a James Joyce, passando por Nabokov e Borges, destruíram seus livros e textos que achavam fracos, menores, chatos. Borges comprava seus primeiros livros em sebos para depois queimá-los. Cioram deixou 34 mil páginas com uma instrução para quando morresse: “Destruir”! Com a internet, esse tipo de coisa é impossível.

Em 2004 escrevi meu primeiro romance, “Sexo Anal – Uma Novela Marrom” – livro do qual muito me orgulho. Agora preparo uma reedição, novamente em papel, para 2014, em comemoração aos 10 anos do livro. O livro está cheio de errinhos bobos, aquele tipo de erro que a gente só vê depois que lança o quarto, quinto livro, depois de ler muita coisa, boa e ruim. Assim, vou revisar “Sexo Anal”, aproveitar para deixa-lo um livro ainda melhor.

O que eu quero dizer é que a possibilidade de publicar e divulgar (tornar público e vulgar) é muito fácil e dinâmica hoje e isso cria uma avalanche de literatura, dos mais diversos níveis e qualidades. Muita gente está publicando coisas por aí que vão gerar constrangimento e arrependimentos futuros. Me parece, hoje – e eu posso estar bem errado – que a criação de uma obra demanda tempo, paciência e opiniões de pessoas que conhecem – tanto livros como literatura.

Meu último livro, “Elvis & Madona – Uma Novela Lilás” foi escrito em seis meses e reescrito e editado durante dois anos. Foi, para mim, incrível o trabalho, a paciência e a energia que os dois editores da Língua Geral, Eduardo Coelho e Diogo Henriques, tiveram com meu livro. Meia dúzia de pessoas esteve envolvida no processo, algumas foram contratadas para ler e opinar sobre o livro. Acho que mudou, no final, uns 15% do que tinha sido escrito – mas foram 15% fundamentais! Creio que seja não só meu melhor livro, mas um volume sem erros, sem defeitos. Você pode ou não gostar da trama ou do meu jeito de contá-la, mas não pode dizer que o livro seja ruim. Pessoas estiveram envolvidas e cuidaram dele e se eu tivesse escrito e publicado imediatamente na internet certamente seria um livro pior.

Por outro lado, acho lindo, é claro, que a internet permita essa agilidade, essa rapidez, eu me tornei escritor por causa da repercussão que “Sexo Anal” teve na rede. Por causa desse livro fui convidado para o projeto “Elvis & Madona” que, além do livro, é um filme de Marcelo Laffitte.

Alguns escritores utilizam o imediatismo da internet para envolver os leitores no processo de criação da obra, fazem dos leitores os editores de texto e eu acho isso legal, mas creio que esvazie um pouco a experiência da leitura do livro.

De qualquer maneira, para fazer literatura na rede o meu conselho é: escreva, mas não publique imediatamente. Leia no dia seguinte e no outro, mostre para alguém que possa fazer uma crítica honesta. Acho importante pensar no dia de amanhã.

O mesmo vale para a edição de e-books, o cuidado que se deve ter com o texto. No caso dos e-books o problema está nos mais variados formatos e nas versões desses formatos que permitem a leitura dos e-books. Esses programas requerem atualizações constantes, são baseadas em tecnologias que ficarão obsoletas em breve e não sabemos se o PDF ou o EPUB de hoje é o que vai ser daqui dois anos. Assim, a literatura em e-books sofre com essa “possível impermanência incômoda”: o e-book lançado hoje, em PDF, por exemplo, pode não abrir ou rodar perfeitamente na versão do programa que vai sair daqui a pouco. Sem dizer que, sim, a bateria do e-reader acaba.

Com a editora que estou montando com Albano Martins Ribeiro, o Branco Leone, quero aliar o método tradicional de edição de livros com as facilidades da internet. As coisas serão lentas e cuidadosas na nossa editora, a ideia não é lançar livros de amigos ou pegar um texto bacaninha, formatar e botar ele lá, pra vender o download. Tem que ser algo realmente bom, bem editado, que vá ter alguma relevância no futuro.

Na década de 1920, quando surgiram as grandes casas editoras, um livro só era lançado quando estivesse realmente pronto e isso podia levar anos, décadas até. A história, a trama, o enredo, era tratados com cuidado e sigilo pelos envolvidos. Há histórias interessantes de espiões de tramas. Esse é outro ponto complicado na era da internet: você publica um conto lá no seu blog e alguém pode chupá-lo e colocá-lo num livro e é possível, bem possível, aliás, que você jamais descubra. Eu escrevo na internet há 10 anos, há uns 6 deixei de me preocupar com os plágios, vampiros e adulteradores. É impossível seguir por aí o que se escreve. Depois que a descrição do perfil do Alex Castro no Orkut – no começo do Orkut, deixemos claro – foi literalmente copiada por centenas de pessoas eu deixei de me preocupar com isso. Eu mesmo copiei o perfil do Alex no meu Orkut e comecei uma campanha para que todos fizessem o mesmo: institucionalizaríamos o perfil do Alex.

Um pouco por tudo isso, por ter amadurecido, por ter lançado um livro realmente bom, tirei todos os meus posts do ar no meu blog recentemente. Vou revisar os mais interessantes repostar com calma. Não é neura, não é arrependimento, é só uma sensação de cuidado.

Sensação que todas as pessoas que publicam na internet geralmente não têm.

Para encerrar, quero dizer que se por um lado temos essa lancinante produção no meio virtual, algo muito ruim e errado está acontecendo em outra ponta, que é o abandono das bibliotecas. Mesmo um e-book deveria ser impresso e enviado para a Biblioteca Nacional. A “digitalização de tudo” fez com que os acervos já abandonados das bibliotecas ficassem ainda mais esquecidos.

Neste momento leio um livro chamado “História Universal da Destruição dos Livros”, de Fernando Báez, e estou pasmado como o patrimônio histórico da humanidade tem sido dilapidado no decorrer da história da humanidade. Cada nova força governante opressora ou cada novo movimento religioso institucionalizado que aparece na história da humanidade e é uma biblioteca que é destruída.

Muito antes da Inquisição e do Índex, a Igreja Católica foi a principal responsável pelo desaparecimento da admirável Biblioteca de Alexandria, que já tinha sido atacada pelos romanos. Em 391 depois de Cristo a biblioteca, que continha os mais importantes textos de pensadores antigos, foi destruída e, no lugar das estantes e dos livros, colocaram cruzes.

Sem nenhum alarde isto aconteceu e está acontecendo no Iraque: as Forças Armadas Americanas bombardearam, destruíram e saquearam as bibliotecas iraquianas. É assim quando uma cultura domina outra: tenta apagar sua memória. Há casos de soldados americanos que estão saqueando bibliotecas para trazerem livros para os EUA, livros raros, que são vendidos a colecionadores e exploradores.

Vamos salvar os livros enquanto publicamos outros.

[A fotita acima é de Miriã Cristina]

Para meu espanto, no debate na Oi Futuro, a pergunta inicial, da professora Rebecca Monteiro, foi justamente sobre permanência e fugacidade da literatura virtual. Como eu era o único não-professor ali, joguei a bola para os professores Alex, Ana Elisa e Wander. Eles expressaram mais ou menos a mesma idéia do meu texto e eu não ia chatear os presentes com meu longo-texto-com-histórinha. Falei apenas sobre a idéia da editora e, aí, o professor Wander se posicionou radicalmente contra e-books, disse que não lê e-books, não conhece e-readers e teve uma postura bastante equivocada sobre democratização da literatura e da informação na internet. Foi ótimo, serviu de contraponto para o debate, incentivou o debate, mas me entristeceu: não achei que dentro da Academia tivéssemos ainda professores que não se maravilhem com essa possibilidade única na história de termos, junto com uma simples conexão de internet, acesso a todo cânone ocidental, todas as obras de domínio público de todo o mundo, em várias línguas, com possibilidades de tradução online. Como um amante da literatura pode não se maravilhar com isso? Impossível. A menos que ele não seja um amante da literatura e sim um amante de… livros. Nesse caso, ele é mais um fetichista que um leitor.

Dizer que as pessoas não tem acesso a internet ou que não tem e-readers, conforme ele disse, é só tentar uma desculpa para não apostar numa solução. As obras estão na internet – e isso é ótimo. Agora vamos resolver a questão da acessibilidade.

Ele fala sobre Bibliotecas, que bibliotecas são acessíveis, mas está certa a Juliana Sampaio que argumentou, da platéia, que as pessoas podem acessar todos esses livros virtuais em uma simples Lan House. Qualquer pessoa hoje tem uma Lan House mais próxima de casa que uma biblioteca. Aliás, se eu fosse apostar em uma ação pública para disseminar a literatura e diminuir a criminalidade usava o exemplo de Bogotá, que descentralizou a Biblioteca Municipal, criou várias bibliotecas em bairros. Se as pessoas não vão mais às bibliotecas, leve a biblioteca até elas.

As pessoas vão até Lan Houses para ler literatura? Não sei, deve haver alguém que leia, mas eu já vi gente salvando arquivos em pen-drive para… ler em casa – já que muita gente tem computador, mas nem todo mundo tem banda larga. Essa sim é uma boa questão para se discutir: as operadoras de banda larga estão provocando cada vez mais o que eu chamo de “erosão digital”, já que sempre priorizam o serviço em condomínios fechados e bairros nobres; vão privilegiando sempre os redutos com maior condição financeira em detrimento dos mais pobres e com isso vão criando “excluídos digitais”.

Ações que envolvem políticas públicas para melhorar a qualidade de leitura do brasileiro devem ser propostas e discutidas, mas creio que não era o que se devia discutir ali. Estávamos falando de literatura digital e o professor Wander é um sujeito do século passado, ele mesmo afirmou. Políticas públicas para melhorar a qualidade de leitura e aprendizado do cidadão que não passem pela internet não irão prosperar. O livro vai permanecer, mas já está se tornando um objeto obsoleto – especialmente para as novas gerações. Várias escolas já abandonaram os cadernos pelos tablets. Olha a facilidade de se ir para a escola levando apenas o tablet: ali dentro estão todos os cadernos, os livros, as atividades, os exercícios e ainda um monte de ferramentas! Como ser contra isso?

Outra coisa que o professor Wander disse foi que nenhum escritor pode escrever se não leu Kafka. Estranhei a afirmação. Primeiro porque todos os escritores que escreveram antes dos livros de Kafka serem publicados obviamente não o leram. Segundo porque entrei na livraria LaSelva do aeroporto e… não tem nenhum livro do Kafka. Mas veja: conectei-me e encontrei todos os livros do Kafka para baixar, o que fiz de graça e em menos de 5 minutos. Como não perceber essa facilidade?

A argumentação, ainda contra a literatura virtual, do jurássico professor, atacou o problema da saúde dos olhos que o computador causa. Ler no computador não é recomendado, dizem alguns especialistas. Mas os e-readers estão aí justamente para resolver essa questão e o professor Wander, como professor de literatura, tem a obrigação de conhecê-los. Os ajustes de brilho, luminosidade e tamanho das fontes vieram resolver esse problema. E há também o Kindle, que tem a tela ainda melhor do que a página de um livro. Dizer que não há nada melhor que a página de um livro, mais um vez, é mais fetiche pelo papel do que pelo seu conteúdo.

A polarização nas respostas para as argumentações do professor Wander tirou um pouco a discussão do trilho, mas ainda assim digo que foi ótimo, acho que foi útil para os estudantes, que compareceram em peso. Ana Elisa se mostrou bastante aberta para as novas tecnologias mas disse que está preocupada com o livro impresso – e citou “A Questão dos Livros” do Robert Darnton que quero muito ler. Darnton é um pesquisador sério e competente, mas isso não quer dizer que ele vai acertar em suas previsões pró-livro impresso. Nesse sentido, gosto mais das previsões de Jason Epstein em “O Negócio do Livro”, pequeno volume lançado em 2001 (!), que diz que os livros impressos não vão morrer, mas vão ficar cada vez mais focados em “unidades diversas e criativas” – mesma tese de Alex Castro, aliás. Epstein, ressalto, foi editor da Randon Rouse por 40 anos e fundador da The New York Review of Books – acho que entende do assunto.

E, no final, o professor Wander nos confessou uma terrível lacuna em sua formação cultural, já que nada conhece sobre música. Naquele momento, senti-o mais humano. Eu fiz um vídeo sobre o Projeto Guri, na cidade de Limeira, há uns 15 anos. Para quem não conhece, o Guri é um projeto que ensina música para crianças carentes. Tinha ali no grupo um garoto de 10 ou 11 anos que nunca havia frequentado escola, os pais nunca deixaram, ele vivia pedindo esmolas nas ruas. Esse garoto não sabia ler ou escrever. Nada. Nenhuma palavra. Mas tocava um saxofone lindamente. Ele também tinha uma lacuna em sua formação – e isso não o fazia um cidadão menor.

Foi ótimo estar em BH com Alex Castro. Chegamos juntos, na tarde de quarta-feira, fomos ao Mercado Municipal, comemos comidinhas típicas, conversamos sobre Tudo – esse é o assunto principal quando se está com Alex.

Vendemos livros antes e depois do debate na Oi Futuro, conhecemos leitores de nossos livros e blogs que foram até lá para um papo & um abraço, partimos para um restaurante para encontrar outros amigos e só não varamos a madrugada porque o Brasil está ficando cada vez mais chato e os bares e restaurantes não ficam mais abertos e meia-noite tudo acaba, todo mundo vira abóbora.

Foi divertidíssimo no restaurante, com Rebecca Monteiro, Carla Moreira e Antonio Baião, todos da FACISABH, mais Juliana Sampaio, Maíra Avelar, Érica Pretes, Daniel Fernandes, Débora Vieira, Janaína Rochido, Cynthia Semíramis e uma galera que nem cheguei a conhecer e perguntar o nome mas que provocou interessantes papos paralelos.

Na quinta de manhã fomos para o Direito da UFMG para um debate sobre “O Direito entre o Feio e a Norma – Considerações sobre Estética e Normalização”. A mesa, composta pelo Alex, Tiago Coacci, Adélcio de Souza Cruz e Daniela de Freitas Marques, fez um dos debates mais lindos e legais que vi nos últimos tempos. Foi realmente fantástico, parabéns ao pessoal que organizou. E ao Túlio Vianna, que indicou o Alex para a mesa.

Ei, Alex, você devia fazer um daqueles posts enormes sobre o assunto.
;>)

Nessa época de digital de facilidades, senti falta de fotos e gente filmando a coisa toda, de atualizações online de twitter & Facebook. Apesar das facilidades digitais a mentalidade geral ainda parece analógica. Mas vai mudar, podem ter certeza.

dia 11 de abril, em BH

Tréplica para a vereadora Divina Bertália; repercutindo meu discurso na Câmara de Americana

Minha resposta para a vereadora Divina Bertalia, de Americana, por conta disso.

As poucas pessoas que leram, antes, meu pequeno discurso para a entrega do prêmio “Destaques Culturais”, da Câmara de Americana, foram unânimes em dizer que eu devia falar um pouco mais sobre mim. Não quis, não era nescessário: eu só quis ser o veículo para externar uma insatisfação geral, um reclame unânime.

Alguns consideraram que não seria o melhor momento, a festa, para críticas. Refleti longamente sobre isso, não sou impulsivo nem estraga-prazeres. Podia recusar a homenagem e publicar meu discurso num blog ou no Facebook. Ele teria o mesmo efeito? Claro que não. As discussões sobre o que eu disse estão em toda parte agora. E não será isso bom?

A réplica que a vereadora fez sobre meu discurso, postada no Facebook [veja link acima] comete o erro que eu não cometi: ela usa metade do texto para contar sua história, justificar sua atuação na área cultural, elogios em boca própria.

Mas me digam, em algum momento eu disse algo contra a vereadora Divina Bertália? Em meu discurso eu a chamo de “batalhadora incansável”, em meu blog falo do seu “trabalho relevante”. Admiro a vereadora. As pessoas que estão saindo, cegas, em sua defesa ou não leram o discurso ou não entenderam nada. E eu fui o mais claro que pude. Ignorantes estão aí.

A nobre vereadora, em sua réplica, diz que o que se viu em plenário, na premiação de terça, foi um “festival de grosserias por parte de algumas pessoas que utilizaram a palavra, em especial pelo jornalista Luiz Biajone (sic)’. Que grosseria eu disse? Só falei que seria bom se a homenagem fosse mais enxuta, tivesse prêmios em dinheiro (importantíssimo para os artistas) e que a Câmara, não apenas de Americana, tem que parar com a banalização das homenagens. Opiniao minha. Estamos em um Estado democrático. Ainda pedi desculpas, no final, se ofendi alguém! Grosseria?

Ora, minha gente, deixem de lado a hipocrisia. Querem me crucificar pelo meu discurso? Crucifiquem também o padre Luis, que falou logo depois de mim e ratificou tudo o que eu disse! Elogiou meu discurso, inclusive. O padre Luis deve estar dentro de “algumas pessoas”, como escreve a vereadora Divina em sua réplica?

Não tenho ligação com nenhum grupo político, não tenho interesse político, não tenho absolutamente nada com o Jornal O Liberal, estou cerca de 18 anos fora de Americana, morei em Santa Bárbara, São Paulo e Limeira. Sobre minha atuação, apenas pelo que vi na premiação de terça, posso dizer que ajudei Geraldo Basanela a estruturar o FECA, em seu início; auxiliei também na fase inicial do MACA – Museu de Arte Contemporânea de Americana (hoje MAC), em uma época em que Ianelli e Tomie Othake expunham aqui e, junto com Juarez Godoy e outros grandes artistas, montamos o grupo de arte Vira Viperina; fui um dos primeiros grandes apoiadores para a divulgação do grupo Abadá de Capoeira em Americana… – isso tudo entre 1985/90. Pode falar com esse pessoal, Divina. Você vai se surpreender.

Depois fui trabalhar em televisão e dar oficinas para o SENAC e para a Secretaria de Cultura do Estado.

Não vou desfilar meu currículo, seria vitupério e impróprio, mas essas informações valem apenas para contrapor a parte da réplica de Divina em que ela questiona nunca ter me visto nos eventos culturais da cidade ou apoiando artistas americanenses. É, Divina, você também pode estar enganada a meu respeito.

Quando me convidam, dou um jeito e vou a um evento. Na exibição do documentário “Dzi Croquettes” (você não estava lá!), exibido na Americana Mostra, estive representando meu amigo Bayard Tonelli, um dos remanescentes do legendário grupo carioca.

Quase não paro na cidade, mas podem me convidar – inclusive para pedir patrocínios. Dou um jeito.

Aí, em sua réplica, Divina fala que entende minhas palavras de indignação “com o tratamento que o poder público dá à cultura e seus artistas” – e diz que essa minha fala é também a dela. Ora, Divina, nós estamos do mesmo lado!

Não fiz nenhum protocolo na Secretaria de Cultura para a tentativa de trazer o livro ou o filme “Elvis & Madona” para Americana, achei que bastava falar com a secretária do Secretario que eu era um artista local que tinha lançado o livro nas principais capitais brasileiras e queria trazer Simone Spoladore e Igor Cotrim para Americana e fazer uma exibição do filme e o lançamento do livro aqui.

Achei que as referências seriam suficientes para que ela falasse com o Secretário e que ele desse alguma atenção e me retornasse. Não conheço o secretário, nada tenho contra ele, mas não houve ao menos um único feedback, nenhuma ligaçãozinha!

Fiz o evento principal do livro/filme em Limeira, com Igor Cotrim – e foi lindo.

Prosseguindo em sua réplica, Divina defende o vereador Nogueira. Não conheço o vereador, não sabia que ele doa seu salário para entidades beneficentes, peço desculpas. Mas que ele disse que artista não se preocupa com dinheiro, isso ele disse. Pode pegar a gravação. Não o culpo; faz parte de uma idéia romântica, que antecede os trovadores medievais. Ele nem está tão errado, conheço gente que estava lá no evento que gosta de ser meio ferrado de grana pois, ora, ‘mexer com cultura é assim mesmo’.

Estou nessa há muito tempo, senhores, eu conheço o riscado. Por favor.

Divina, em sua réplica, me chama de “inflamado” – mas eu não alterei minha voz, fiz voz miúda o discurso todo. Quem estava lá pode dizer. Eu gritei? Eu me inflamei? Certamente não. Tenho quase 24 anos de rádio e TV. Por favor!

Na seqüência, Divina quer imputar a mim as possíveis perdas de patrocínios que podem acontecer depois do meu discurso. Isso tem nome: é “demonizar o dissonante”. Falei o que ela não queria ouvir: eu sou o demônio. Sartre, etc…

Enfim, mesmo tendo eu feito algumas falas com as quais a Divina concorda, teve outras em que eu pisei na bola, logo, eu sou o inimigo

Aí, em sua réplica, Divina faz uma ameaça – e a classe cultural se arrepia. Ela pode não mais querer pedir dinheiro para os artistas. Todos ficam temerosos.

Ao menos, ao final, Divina diz que minha articulação foi “rica”. Como dizem, acho que “mandei bem”. Não foi por mal, podem ter certeza.

O fato é que encontrei, ao final do evento de premiação, tal carinho que fiquei impressionado.

Esse pessoal da cultura é muito carente, muito sensível, muito aberto. E também muito tímido, muito ruim de pedir dinheiro. Quando aparece alguém que fala em nome deles para conseguir alguma grana, eles logo agradecem. Foi assim com você, Divina. Foi assim comigo.