Quando assisti “Coração Satânico†pela primeira vez, fiquei alucinado. Ali estava um dos meus diretores preferidos, dois dos meus atores preferidos, cenas impressionantemente fotografadas por um dos melhores fotógrafos do cinema contemporâneo, uma trilha arrebatadora e – principal – uma história sensacionalmente original.
Pois fui atrás do livro e encontrei um romance policial ainda melhor, um dos melhores que já li, melhor ainda que o filme. O autor era William Hjortsberg, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pois é um escritor cultuado de contos e narrativas de ficção, uma de suas short-stories transformada no (bom) filme “A Lendaâ€, do Ridley Scott.
Quem pediu que o próprio Hjortsberg trabalhasse no roteiro de sua novela “Falling Angel†foi o lendário produtor Robert Evans. John Frankenheimer e Robert Redford se interessaram pelo projeto. Mas a pergunta que todos faziam era: não dá pra ter um final feliz? Felizmente o autor brigou para manter o final e ofereceu o roteiro para Brian DePalma, que se interessou. Foi DePalma quem sugeriu que parte da trama fosse transferida para New Orleans – no livro, a história se passa toda em New York. Hjortsberg comentou sobre a idéia com Alan Parker que abraçou a produção. A entrada de DeNiro e Mickey Rourke, dois dos melhores atores de suas gerações, criou a perspectiva de um grande filme.
Parker chamou o habitual fotógrafo, Michael Seresin, que tinha feito um excelente trabalho em “O Expresso da Meia-Noite†e “Asas da Liberdade†– e ele se superou nas luzes estouradas, trabalhadas com ventiladores, que geram sempre sombras duras e tenebrosas durante o filme. Aliás, discussões sem fim aconteceram por conta da presença excessiva de ventiladores do filme. Alguém arrisca alguma teoria? (Mais sobre isso no final do post*)
Seresin ficou amigo de Mickey Rourke e ambos encabeçaram o projeto “Homeboyâ€, único filme dirigido por Seresin. É um bom filme invisÃvel, lançado em VHS nos anos 90, sobre um lutador de boxe decadente, personagem que Rourke reencarnou agora em “O Lutadorâ€, vencendo o Globo de Ouro e se candidatando ao Oscar, ora vejam!
A trilha ficou a cargo de Trevor Jones, que voltaria a trabalhar com Parker na excelente trilha de “Mississipi em Chamasâ€. O trabalho de Jones não seria tão brilhante se não fosse pela presença do saxofonista-sensação do momento, Courtney Pine. Jones fez uma projeção do filme enquanto Pine improvisava no sax – e assim a trilha foi mixada.
O filme ficou bárbaro, assustador. Mas é um filme imperfeito, algumas sequências parecem desconexas. Quando Parker viu a trilha que tinha em mãos - experiente após “Pink Floyd – The Wall†- deixou de lado a lógica e deu preferência à sensação. Funciona. Depois de assistir a várias vezes, as deficiências de montagem vão ficando evidentes. Mas o filme funciona completamente no que se propõe.
Apesar de Parker ter sido indicado ao Oscar por “O Expresso da Meia Noite” - e, depois, por “Mississipi em Chamas” -, “Angel Heart†foi solenemente ignorado pelo Oscar. Seu maior sucesso de bilheteria foi na Alemanha - talvez não por acaso existe um eco de tragédia faustiana nele. Sobre o filme, escreveu Horst Peter Koll, na film-dienst: “[...] uma estratégia narrativa muito bem calculada: os acontecimentos são precedidos de ruÃdos, visões de sonho assustadoras encontram em estado de pesadelo seu remate em diversos nÃveis da ação, personagens com o contorno muito bem definidos perdem a identidade, porque as imagens não são compostas segundo as leis da razão e da lógica, mas nascem de uma realidade sintética, que só pode ter validade no cinema”.
A má notÃcia é que acham que a mágica pode ser refeita: “Coração Satânico†pode ganhar remake. Mais medo que essa notÃcias só a de que Sylvester Stallone escreveu e vai dirigir a cinebio de… Edgar Allan Poe.
*Sobre os ventiladores no filme, Parker disse à revista Première: “[...] no filme aparecem muitos ventiladores. Sempre indicam a próxima morte. Verificamos que esse elemento funcionou muito bem como imagem e sÃmbolo, mas a intenção não foi essa. Naturalmente a maior parte dos jornalistas não acredita nisso, mas, é verdade, não fotografei os ventiladores para produzir qualquer efeito. Introduzi-os no filme poque em toda parte em que chegava, em Nova Iorque ou Nova Orleans, enquanto trabalhava no roteiro, vi esse tipo de ventilador - com os mesmos tipos de pás, que sempre pareciam fazer parte das minhas costas. Isso me perseguiu e entrou naturalmente no roteiro, como algo que se tivesse imposto a mim”.