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paixão selvagem – 1976

Pensando em “Elvis & Madona“, o filme e o livro, lembrei de um casal inusitado e, uh!, sexy do cinema… De um filme muito comentado e pouco visto, uma obra-prima de Serge Gainsbourg: “Paixão Selvagem” ou, no original, “Je T’aime moi non plus”.

Joe D’Alessandro, muso da Factory de Andy Warhol, por quem Lou Reed lambia os beiços, é o motorista de caminhão gay, que tem um ajudante/namorado, que se apaixona pela Jane Birkin magérrima e sem peitos, miúda e toda máscula, balconista de beira de estrada. Ele se apaixona por ela porque acha inicialmente que é um homenzinho. Quando vê que é menina, quer fazer sexo anal com ela, já que só assim sente prazer. O caminho do prazer é difícil e nem tudo sai como planejado.

Eu realmente adoro esse filme. Os atores são ótimos, as locações são bárbaras, a trilha sonora é fantástica (do Gainsbourg, lógico). Lembro do impacto da primeira vez que o vi. É um filme gay, adorado por gays e acho isso um pouco ruim pois o afastou do público adulto comum (hmmmm, eu!) que talvez tenha dificuldade de analisar como Cinema. Parece que saiu numa edição limitada em DVD no Brasil, mas é difícil de achar. Se a temática lhe agrada, procure avidamente.

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jogo de emoções – 1987

Quando lançado em VHS, no auge das locadoras, o primeiro filme dirigido por Mamet causou frisson, virou hit de boca-a-boca. Com roteiro adaptado de sua própria peça, Mamet levou para o cinema sua experiência do teatro: linhas exigentes, que pediam bons atores, charmosos, que deixavam em suspenso o que realmente estava acontecendo. Ele tinha feito o roteiro para “O Veredito”, pelo qual foi indicado ao Oscar, a versão de Bob Rafelson para “O Destino Bate à Sua Porta” e acabado de adaptar a saga de Elliot Ness para DePalma em “Os Intocáveis”. Estava em seu melhor momento e Lindsay Crouse (esposa de Mamet na época) e Joe Mantegna foram chamados para compor a dupla que carrega “Jogo de Emoções”. Estão soberbos e lindos.

O filme segue a linha do “nada parece ser o que é”. Temos uma psicóloga-escritora bonita, rica, bem-sucedida e meio masculina, com cabelos curtinhos (era moda em fim dos anos 80) e terninhos sóbrios com ombreiras querendo ajudar um paciente a se livrar do vício em jogos e que acaba se envolvendo com um vigarista charmoso. Crouse é a psicóloga, Mantegna é o vigarista. Aparentemente, ela entra em um mundo que não conhece, perigoso. Aparentemente, ele se apaixona por ela. A confusão de aparências nos remete a Hitchcock – mas se o inglês é o mestre da arte cinematográfica, Mamet é o mestre do diálogo, então o filme pode até parecer um pouco lento e verborrágico.

O suspense crescente vai envolvendo o espectador, até a explosão final, um dos finais mais surpreendentes de todos os tempos.

É um filme bárbaro, surpreendente, que não foi lançado em DVD no Brasil. Mais um filme invisível. Nunca mais Mamet dirigiu um filme tão bom. Tem bons roteiros, filmados por outros diretores – mas nenhum tão bom quanto esse, com possível exceção de “O Veredito”, “Os Intocáveis” e “Mera Coincidência” (Levinson, 1997).

Mamet trabalha agora numa versão do “Diário de Anne Frank” para a Disney.

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bubba ho tep (2002)

Elvis não morreu, está internado num asilo no Texas e sofre com um tumor no pênis. É amigo de um velho negro que acredita ser John Kennedy. O asilo é assombrado por uma múmia egípcia que suga a alma dos velhinhos e depois as dispensa (as almas) digeridas no vaso sanitário. Elvis e o JFK negro enfrentam a múmia.

Esse é o resumo de “Bubba Ho Tep”, filme de 2002 nunca lançado no Brasil.

Um resumo desanimador, vai dizer? Vamos ver se você se anima: Elvis é interpretado por Bruce Campbell em uma de suas melhores e mais premiadas performaces – venceu o Fantasporto e o Fangoria. O Kennedy negro é Ossie Davis, um dos atores preferidos de Spike Lee. O roteiro, também premiado, é baseado num conto do maluco Joe R. Lansdale, especialista em Elvis e cultura pop e filmes antigos. E Don Coscarelli, nome renomado do cinema fantástico – mas não exatamente trash – dirige e assina o roteiro, premiado com o Bram Stoker Award.

Se animou? Sim, o filme é ótimo, engraçado, tocante e incrivelmente… crível!

Um amigo novo, fã de filmes B, tatuador, de apenas 21 anos, me apresentou essa pérola – e algumas outras, sobre as quais espero escrever aqui. É incrível como, mesmo você procurando estar ligado, antenado nas coisas do cinema, deixa escapar coisas tão fantasticamente legais como esse “Bubba Ho Tep”. Por isso, um bom papo, uma conexão banda larga para baixar e alguém competente como a Deborah (namorada do Danilo, esse meu novo amigo) são im-pres-cin-dí-ve-is!

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coração satânico (1987) – o filme, o livro e péssimas notícias

Quando assisti “Coração Satânico” pela primeira vez, fiquei alucinado. Ali estava um dos meus diretores preferidos, dois dos meus atores preferidos, cenas impressionantemente fotografadas por um dos melhores fotógrafos do cinema contemporâneo, uma trilha arrebatadora e – principal – uma história sensacionalmente original.

Pois fui atrás do livro e encontrei um romance policial ainda melhor, um dos melhores que já li, melhor ainda que o filme. O autor era William Hjortsberg, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pois é um escritor cultuado de contos e narrativas de ficção, uma de suas short-stories transformada no (bom) filme “A Lenda”, do Ridley Scott.

Quem pediu que o próprio Hjortsberg trabalhasse no roteiro de sua novela “Falling Angel” foi o lendário produtor Robert Evans. John Frankenheimer e Robert Redford se interessaram pelo projeto. Mas a pergunta que todos faziam era: não dá pra ter um final feliz? Felizmente o autor brigou para manter o final e ofereceu o roteiro para Brian DePalma, que se interessou. Foi DePalma quem sugeriu que parte da trama fosse transferida para New Orleans – no livro, a história se passa toda em New York. Hjortsberg comentou sobre a idéia com Alan Parker que abraçou a produção. A entrada de DeNiro e Mickey Rourke, dois dos melhores atores de suas gerações, criou a perspectiva de um grande filme.

Parker chamou o habitual fotógrafo, Michael Seresin, que tinha feito um excelente trabalho em “O Expresso da Meia-Noite” e “Asas da Liberdade” – e ele se superou nas luzes estouradas, trabalhadas com ventiladores, que geram sempre sombras duras e tenebrosas durante o filme. Aliás, discussões sem fim aconteceram por conta da presença excessiva de ventiladores do filme. Alguém arrisca alguma teoria? (Mais sobre isso no final do post*)

Seresin ficou amigo de Mickey Rourke e ambos encabeçaram o projeto “Homeboy”, único filme dirigido por Seresin. É um bom filme invisível, lançado em VHS nos anos 90, sobre um lutador de boxe decadente, personagem que Rourke reencarnou agora em “O Lutador”, vencendo o Globo de Ouro e se candidatando ao Oscar, ora vejam!

A trilha ficou a cargo de Trevor Jones, que voltaria a trabalhar com Parker na excelente trilha de “Mississipi em Chamas”. O trabalho de Jones não seria tão brilhante se não fosse pela presença do saxofonista-sensação do momento, Courtney Pine. Jones fez uma projeção do filme enquanto Pine improvisava no sax – e assim a trilha foi mixada.

O filme ficou bárbaro, assustador. Mas é um filme imperfeito, algumas sequências parecem desconexas. Quando Parker viu a trilha que tinha em mãos – experiente após “Pink Floyd – The Wall” – deixou de lado a lógica e deu preferência à sensação. Funciona. Depois de assistir a várias vezes, as deficiências de montagem vão ficando evidentes. Mas o filme funciona completamente no que se propõe.

Apesar de Parker ter sido indicado ao Oscar por “O Expresso da Meia Noite” – e, depois, por “Mississipi em Chamas” -, “Angel Heart” foi solenemente ignorado pelo Oscar. Seu maior sucesso de bilheteria foi na Alemanha – talvez não por acaso existe um eco de tragédia faustiana nele. Sobre o filme, escreveu Horst Peter Koll, na film-dienst: “[...] uma estratégia narrativa muito bem calculada: os acontecimentos são precedidos de ruídos, visões de sonho assustadoras encontram em estado de pesadelo seu remate em diversos níveis da ação, personagens com o contorno muito bem definidos perdem a identidade, porque as imagens não são compostas segundo as leis da razão e da lógica, mas nascem de uma realidade sintética, que só pode ter validade no cinema”.

A má notícia é que acham que a mágica pode ser refeita: “Coração Satânico” pode ganhar remake. Mais medo que essa notícias só a de que Sylvester Stallone escreveu e vai dirigir a cinebio de… Edgar Allan Poe.

*Sobre os ventiladores no filme, Parker disse à revista Première: “[...] no filme aparecem muitos ventiladores. Sempre indicam a próxima morte. Verificamos que esse elemento funcionou muito bem como imagem e símbolo, mas a intenção não foi essa. Naturalmente a maior parte dos jornalistas não acredita nisso, mas, é verdade, não fotografei os ventiladores para produzir qualquer efeito. Introduzi-os no filme poque em toda parte em que chegava, em Nova Iorque ou Nova Orleans, enquanto trabalhava no roteiro, vi esse tipo de ventilador – com os mesmos tipos de pás, que sempre pareciam fazer parte das minhas costas. Isso me perseguiu e entrou naturalmente no roteiro, como algo que se tivesse imposto a mim”.

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alguns filmes invisíveis dos 80´s

Conforme as locadoras foram surgindo e mais filmes foram lançados, no início dos anos 80, aconteceu em cinéfilos como eu uma excitação anormal tendo em vista o inacreditável acesso a filmes sobre os quais só tínhamos ouvido falar. E a alguns sobre os quais nem tínhamos ouvido falar, mas eram incríveis. Eu achava que locadoras seriam como grandes bibliotecas. Estava enganado.

Conforme mais filmes eram lançados e os espaços físicos se tornavam apertados, as locadoras vendiam ou simplesmente jogavam no lixo os filmes menos locados. Com a gradual entrada e posterior tomada do DVD, os filmes em VHS sumiram. A reposição, como sabemos, se tornou um processo que mesmo hoje, depois de mais de 10 anos do DVD, não se deu por completa. Muitos filmes que saíram em VHS ainda não deram as caras em DVD. Assim, sumiram totalmente do mapa.

Muitos desses filmes foram grandes sucessos de locação nos anos 80. Alguns são bem conhecidos, com grandes atores, ganharam prêmios. Outros são mais obscuros. O fato é que eles sobrevivem apenas na memória de quem os viu e na grade de programação madrugal das emissoras de TV. Cito apenas oito deles:

- As Amazonas na Lua (1984) – filme em episódios com John Landis e Joe Dante no comando e um monte de estrelas, “As Amazonas na Lua” é uma comédia nonsense e até politicamente incorreta em alguns momentos – o que talvez justifique o “esquecimento” de lançá-la em DVD por aqui.

- A Honra do Poderoso Prizzi (1985) – Onde anda esse filme? Teve uma pequena edição nacional em DVD, mas não se encontra mais em lugar nenhum. Concorreu a 8 Oscars, incluindo melhor filme, e deu a estatueta para Angelica Houston, atriz coadjuvante. Direção de John Houston, com Jack Nicholson e Kathleen Turner na história de amor entre dois assassinos profissionais. Belo, engraçado e charmoso filme.

- Fandango (1985) – Um dos primeiros filmes do Kevin Costner antes de se tornar grande astro, esse Fandango fez grande sucesso no início das locadoras. Comédia leve sobre um grupo de amigos que deixa a universidade, tinha a mesma procura de “Karatê Kid”, por exemplo. Mas não teve a mesma durabilidade, pelo visto.

- Manhunter (1986) – Primeira adaptação para o cinema de “Dragão Vermelho”, de Thomas Harris, primeira personificação de Hannibal Lecter (estranhamente chamado de Lektor neste filme), com direção de Michael Mann. Excelentes atores, especialmente William Petersen como Will Grahan e Brian Cox como “Lektor”.

- Betty Blue (1986) – Indicado ao Oscar de filme estrangeiro, o longa de Jean-Jacques Beineix inaugura uma nova estética francesa, com visual mais “publicitário”. O tema, porém, é indigesto: o amor desmesurado entre um desencanado aspirante a escritor e a bipolar do título. Bonito e impactante.

- Barfly (1987) – O filme com Mickey Rourke interpretando Charles Bukowski e Faye Dunaway mostrando as belas pernas foi lançado em DVD aqui, mas duvido que você ache. Buko adorou o filme e a atuação de Rourke, escreveu “Hollywood” por causa da experiência.

- Roxanne (1987) – Adaptação contemporânea de Cyrano de Bergerac com Steve Martin no papel do narigudo e Daryl Hannah como o “objeto do desejo terceirizado”, o filme é um dos primeiros de Fred Schepisi que nunca fez algo melhor.

- Mulher Nota 1.000 (1985) – Pô, Kelly LeBrock. Tá certo que depois de ser a dama de vermelho, fez “Difícil de Matar”, conheceu e casou com Steven Seagal.

E nem vou falar em “Tuff Turf”, “Gymkata”, “A Hora do Medo” entre vááários outros…

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o fim dos tempos & o nevoeiro – 2008

Dois filmes de terror apocalíptico, lançados quase ao mesmo tempo.

À frente de “O Fim dos Tempos”, o cultuado M. Night Shyamalan, diretor de filmes fantásticos, cuja carreira estava à prova depois do espezinhado “A Dama na Água”. Shyamalan estava, aparentemente, em seu habitat: os rumores do enredo eram de um “inimigo invisível” que atacava a Terra – e o diretor bem gostava de “assustar sem mostrar”.

O projeto “O Nevoeiro” era visto com desconfiança, tinha uma trama fantástica demais para um diretor que escolhia temas mais humanizados da obra de Stephen King. Outros filmes já haviam sido feitos com o mesmo tema do “nevoeiro” e a expectativa era que Frank Darabont se atrapalhasse com tantos “monstros” reais, visíveis e muito palpáveis presentes tanto no conto-referência de King como no roteiro que o próprio Darabont escreveu.

Filmes prontos e vistos, as expectativas se confirmaram inversamente.


Shyamalan fez um filme fraco, que sequer assume o McGuffin, tentando dar explicações científicas para o fenômeno que faz com que as pessoas se matem. É um filme de zumbis sem zumbis. Os únicos zumbis são os telespectadores que, altura tanta, sentem mesmo certa osmose e querem dar cabo à própria vida por estarem assistindo a um filme tão chocho. Não há conclusão, nem ecológica, como se esperava. Os personagens não têm carisma e o Mark Walbergh não tira a camisa nenhuma vez – o que frustrou as expectativas da minha senhoura. Não tem sexo, nem grandes sustos, a tensão inicial se esvazia em menos de meia hora e o filme quase não se agüenta por hora e meia, como bem disse Nelson Moraes, num papo de MSN dia desses.

“Fim dos Tempos” é, porém, um filme a ser visto. Shyamalan mantém uma coerência temática, desenvolveu um estilo próprio, tem uma escrita cinematográfica marcante como poucos e cria algumas cenas realmente boas. Gostei especialmente da cena em que o carro entra em Princeton e se vê as escadas altas encostadas nas árvores e, acima, os corpos pendurados das pessoas que se mataram.

Já “O Nevoeiro” se desenvolve diferente: começa meio mal; uma tempestade provoca uma correria até o supermercado principal de um pequeno vilarejo. De repente, sabemos que a tempestade pode estar relacionada com uma névoa estranha e densa que toma a parte de fora do supermercado. A câmera do diretor está dentro do supermercado, junto as pessoas, acompanhando a perplexidade de todos. A tensão vai crescendo a medida que os “monstros” do lado de fora vão dando as caras e a medida que os personagens dentro do recinto vão revelando também seus fantasmas, medos e paranóias. O ápice é o discurso de uma religiosa, que acha que estão todos prestes a presenciar o… fim dos tempos. O discurso acaba em sangue e divide os cidadãos. Alguns decidem fugir. E o final do filme é poderoso, chocante e não se preocupa com explicações demoradas sobre o incidente que talvez tivesse causado a névoa e/ou os monstros.

Parece que Shyamalan, na ânsia de assustar com menos (onde menos é mais, manja? – aquela coisa minimalista) esqueceu que cinema é movimento, protagonista, antagonista, drama humano e… imagens. Darabont faz seu o trabalho redondo, não quer inventar nada, mas tem sensibilidade para não pisar o trash ou o gore, veja a cena quase final, dos tiros dentro do carro.

Em alguns momentos, o profissionalismo supera a vocação e a intuição. Sempre supera o pretensionismo.

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no mundo de 2020 – 1973

Assisti “No Mundo de 2020” (Soylent Green, 1973) muito jovem, na TV. Apesar de ambientado no futuro e da premissa aterradora, descoberta no final do filme – e no final desse artigo -, é um filme policial de construção padrão, linguagem correta, coisa que o Richard Fleischer faz, seguindo a cartilha. Há, porém, algumas coisas que diferenciam o filme.

Quando vi o filme, uma cena ficou retida na memória. O mundo do futuro é quente, muito quente. Mesmo assim, o personagem principal se delicia diante da possibilidade de tomar um… banho quente! Essa foi uma cena importante para mim. Se estava tão calor, por que o herói queria tanto um banho quente? (Anos depois, com essa cena ainda viva, pensei em uma história toda desenvolvida sobre essa cena; o banho quente no dia de calor)

O que faz desse filme, um filme “diferente” – tirando o gosto do detetive por banhos quentes – é sua aura noir com ambientação quente, iluminada, fosfórica. Em termos visuais é um anti-Blade Runner. A tensão noir, porém, está bem lá: nas mulheres fatais, na batida da “investigação do heróis solitário” e, essencialmente, na vibração do trio masculino principal: Charlton Heston, Joseph Cotten e Edward G. Robinson – foi, inclusive, o último filme de Robinson.

Heston é o detetive que pode ter servido de modelo tanto para o Harrison Ford de “Blade Runner” (inteligente, mas algo deslocado; ágil, mas não querendo acreditar em coisas que se lhe apresentam) quanto para o Bruce Willis de “Os 13 Macacos” (o herói involuntário, homem certo na hora errada ou vice-versa, assustado com a realidade). Há um eco, não só no filme como do personagem de Heston, em “Arquivo X” (a busca por uma verdade abjeta, o clima paranóico e conspiratório). “Soylent Green” abriu possibilidades.

O mundo futuro desesperador e miserável, o cataclisma ambiental, os alimentos que sumiram, a fome que grassa, anteciparam muitos filmes, assim como essa “onda” verde, o novo filme do Shyamalan, “Eu sou a Lenda”, “Uma Verdade Inconveniente”, etc…, etc…

O principal ponto, e aqui vai o spoiler inevitável, é que a investigação empreendida por Heston envolve a morte de um empresário responsável pela fabricação do principal alimento da humanidade naqueles dias, o tal “Soylent Green”. O que não sabemos – e que vai ser anunciado no clímax – é que o alimento é feito de… seres-humanos. Nesse sentido, o filme antecipa questões éticas, discussão sobre células-tronco, “Gattaca”, entre vários outros.

Alguém há de dizer que antes de “No Mundo de 2020” houve George Orwell e Aldous Huxley – é claro. Mas no cinema, creio que “No Mundo de 2020” – pela exposição que teve, pelos grandes astros, pela repercussão do alerta que pedia que pessoas sensíveis não vissem o filme, pela ampla distribuição – marcou boa parte dos filmes de ficção do futuro.

O filme passa sempre no TCM, como bem alerta Hermê.

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história do olho – georges bataille – primeira edição em 1928

A grande pergunta que a leitura das páginas desse primeiro e brevíssimo livro de Georges Bataille suscitou em mim é a grande pergunta que eu mesmo gostaria que os leitores do meu livro se fizessem no desvendar sucessivo das páginas.

Estranhamente, não encontrei essa pergunta nos elaborados ensaios que li sobre o livro. Eliane Robert de Moraes, Michel Leiris, Barthes, Cortázar e Vargas Llosa escreveram sobre ele. São textos muito interessantes; realmente dá para viajar muito nessas páginas da “História do Olho” – possivelmente um dos livros mais escolhidos para trabalhos acadêmicos de psicologia.

A história do livro, se conhece: Bataille era um jovem arquivista na Biblioteca de Paris atormentado por uma infância traumática – o pai sifilítico, cego, paralítico e louco; a mãe igualmente louca e suicida na sequência – e pela infrutífera aspiração para escritor. O empurrão foi dado pelo psicanalista Adrien Borel que pediu que Bataille escrevesse sem amarras. Dessa iniciativa surgiu a “História do Olho”.

A história em si reúne um jovem e sua amiga em brincadeiras sexuais cheias de imagens fortes e impressionantes. Uma outra amiga se une a eles brevemente, pois é internada num sanatório e, em seguida, se mata.

O jovem casal sem idade parte então para uma jornada de sexo, morte e devassidão apoiados por um patrocinador inglês. A penúltima cena, que deveria fechar o livro, é assustadora em imagens e palavras. Mas talvez o assustador esteja no último capítulo, chamado de “Reminiscências” em que Bataille tenta dar um norte para a relação entre os fatos da história e de sua própria vida.

Antes mesmo de ler essa parte, eu já havia me feito a grande pergunta várias vezes. E qual seria essa grande pergunta? A seguinte: até que ponto o que o livro conta pode ter sido ou ser realmente realidade?

Sim, pois o que lemos nos impressiona e nos tira de nossa razão de maneira surreal – e o choque da realidade quando olhamos em volta, a posteriori, parece ser o questionamento sobre todas as pessoas comuns e o que de fato eles podem ser capazes de fazer!

(Tela “Corrida au Soleil”, de André Masson, surrealista francês, que ilustrou “A História do Olho”, de Georges Bataille)

- Acontece já na segunda página, de forma memorialista e real: “Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro, em alta velocidade. Atropelei uma ciclista jovem e bela, cujo pescoço foi quase arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo.”.

Teria isso acontecido de fato? Ao assumir o tom autobiográfico, inclusive no adendo final, Bataille nos coloca mais medo. E aponta que talvez as perversões das mentes humanas podem ser realmente chocantes quando olhadas bem de perto. Talvez por isso, mas não somente, o livro tenha esse nome.

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dario argento, o melhor diretor de filmes ruins do mundo

Hoje é 7 de setembro, uma data importante. Não pela lenga-lenga da Independência do Brasil, esse dia em que Dom Pedro II, em seu cavalo branco de Napoelão, teria liberado no País as piadas de português. No sétimo dia de Setembro se comemora o “Dia do Giallo” – e isso sim  é importante! É aniversário de Dario Argento.

Filho de mãe brasileira, com mais de 20 filmes no currículo, Argento é pouco conhecido e divulgado no Brasil, não há espaço para seus filmes nas grades de TV, as locadoras têm medo de disponibilizar filmes tão estranhos, as grandes lojas não vendem seus DVDs. Sim, boa parte da filmografia de Argento saiu no Brasil, comprei uns três ou quatro de seus filmes em bancas de DVD de supermercado de periferia… onde eles foram parar.

É incrível que um diretor como ele, que impressionou e influenciou Kubrick, DePalma e Tarantino – para ficarmos apenas no primeiro time -, não seja tratado com, pelo menos, mais cuidado. O que disseram sobre Serge Gainsbourg (“Se fosse americano estaria no mesmo nível de um Dylan”) talvez possa ser dito sobre Argento em paralelo com um desses grandes e estilosos cineastas americanos, talvez um David Lynch não tão recente. Nem evoco alguém do cinema fantástico ou de terror porque o cinema americano não tem, de fato, um GRANDE representante nessa linha, talvez John Carpenter. E Argento reina como poucos – mesmo cometendo grandes erros.

O homem começou em 1970 com “O Pássaro das Plumas de Cristal”, filme que inaugura seu estilo que ele passa a perseguir, canibalizar, introjetar, referenciar. Quase todos os outros filmes dele tem algo de “O Passáro…”, mesmo aqueles que exploram mais o fantástico que o thriller. Dizem que o filme foi inspirado pelo “Blow Up” do Antonioni, que é cheio de citações a Hitchcock, que a direção tem mais de Vitorio Storaro (fotógrafo de cena, Morricone fez a trilha) que de Argento… Não acho nada disso; acho que Argento estava meio perdido fazendo seu primeiro filme e nem ele mesmo soube direito como fez o que fez. Os caminhos que o filme percorre, na investigação de um crime, se perdem e se encontram tanto que o final não faz a menor diferença: temos um balé de cenas tão interessantes que o conjunto quase não importa.

Muitos dizem que “O Pássaro…” é um aquecimento para “Profondo Rosso – Prelúdio para Matar”, a obra-prima que ele faria cinco anos depois. O filme só não é melhor porque Argento tinha conhecido uns caras duma banda chamada Goblin e eles, infelizmente, se tornariam parceiros fiéis nas trilhas. A música eletrônica dos caras só não é pior que as músicas de heavy-metal que Argento também inventou de meter nos filmes. Dá saudade da inventiva trilha de Morricone de “O Pássaro…”.

Na mesma linha desse dois filmes surgiria depois “Sleepless” (2001), com Max Von Sydow, melhor que a média dos filmes mais recentes do diretor.

Além desses três, gosto muito de “Trauma” (1993)  e do “Terror na Ópera” (1987), filmes que revelaram ao mundo a beleza da filha do diretor, Asia Argento. Esses cinco filmes resumem a maravilha do fazer de Argento, que antes de se tornar diretor escreveu filmes, como “Era uma vez no Oeste”, de Sergio Leone.

Há quem goste dos filmes mais oníricos, esse efeito de sonho/pesadelo que Argento consegue com sua câmera fluídica… Mas o incensado “Phenomena” (1985) ou mesmo “Suspiria” (1977) não entram em minha lista dos melhores dele.

Seu último filme, recém-rodado, está sendo muito aguardado. Chama-se, adequadamente, “Giallo”, amarelo em italiano, que é como chamavam as revistinhas de terror e mistério com capa amarela que eram vendidas em bancas italianas. Virou definição de tipo de filme, como “Noir”. E em termos de Giallo, Argento virou sinônimo. Como Raymond Chandler e Dashiel Hammet para o Noir.

 

 

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amor pra cachorro – 2007

Eu adoro ler comentários de pessoas sobre filmes, em sites de divulgação, como o Interfilmes. Sobre “Amor pra Cachorro”, filme sobre o qual quero escrever, a Nayama e a Marina comentaram lá que o filme é “Muito bom! Mostra como as pessoas devem amar realmente os animais… Uma lição.” e “Estou recomendando este filme para várias pessoas, para que tomem consciência do dever de respeitarmos todos os animais, além de nós.”. Se Mike White, o diretor, estivesse morto, certamente se reviraria no túmulo.

Yeardogyear Of The Dog Posters

White é amigo de Jack Black e criador de personagens disfuncionais & tramas insensatas presentes em “Orange County” “Escola do Rock” e “Nacho Libre”. Em sua estréia como diretor, ele escreveu uma sátira cínica a essas pessoas que não conseguem se relacionar, não conseguem namorar, não conseguem ser felizes porque geralmente estão mais preocupadas com os cãezinhos de rua, com as manifestações pelos direitos dos animais ou gastam mais dinheiro com a casa, comida e roupa lavada dos bichinhos de estimação do que com o próprio guarda-roupa. O problema é que essas pessoas – que podiam se identificar e achar graça no escracho de White – geralmente não tem bom-humor. Algumas dessas pessoas sequer têm qualquer humor. E o retrato que o filme faz delas, com algum realismo, faz com que elas, as personagens do filme, às vezes pareçam tão chatas, tão chatas, tão insossas nesse ramerrame em prol dos bichos que… não há bom-humor que se sustente.

Na chatice de ser e representar esse tipo de gente na tela, sobra um filme ácido que, para mim, resultou em uma hora e meia de curtição. Menos curtição que “Nacho Libre”, é verdade, mas uma curtição de ver ali, na tela, algumas pessoas que conheço na vida real. É gente que geralmente não vemos no cinema. E o filme é curto, isso ele tem de muito bom.

Faltou a White chutar o pau da barraca, botar a personagem da Molly Shannon para ficar com o personagem do John C. Reilly, fazer a cena final dos dois numa mega-trepada ao ar livre enquanto uma picanha sangra na churrasqueira. Fecha na picanha, sobem os créditos.

Mas só mentes re-al-men-te doentias como a minha pensam esse tipo de coisa.

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