(Texto meu publicado ontem, 13/09, no jornal O Liberal, de Americana)
A morte do professor Renzo Camargo por suposto erro médico, ocorrida no dia 2 de Setembro, ganhou, com razão, destaque na mÃdia. É inconcebÃvel que mortes assim aconteçam ainda. Mas não quero falar sobre esse trágico acontecimento. Renzo era meu tio. Mas era muito mais que isso.
É fácil para um sobrinho escritor tecer loas para um tio morto. Aliás, é fácil glorificar mortos, coisa que a História faz com frequência, muitas vezes com canalhas. Não é o caso aqui. Renzo era uma pessoa especial para todos que o conheceram, seja ao longo de vários anos ou apenas por alguns minutos: uma dessas pessoas que trazem esperança ao ser humano.
Mas agora ele se foi. Fica a saudade, fica o sentimento de impotência de não ser possÃvel reverter o que foi aconteceu. É difÃcil para mim, sobrinho-admirador, encarar essa perda. Só não é mais difÃcil porque não estou sozinho: Renzo deixou uma multidão de órfãos: órfãos-amigos, órfãos-alunos, órfãos-parentes. A sensação é mesmo de orfandade, pois a relação que Renzo tinha com as pessoas não era de amizade, de professor-aluno ou de parente: a relação que Renzo tinha com as pessoas era de Pai. Ele era paternal e atencioso com todos, indistintamente. E o melhor pai que alguém poderia ter, essa é a certeza de todos e ainda mais de LÃvia, a filha carnal, de 16 anos, que agora é minha irmãzinha mais jovem.
Culto e inteligente; amante das artes, sempre pronto a nos indicar um livro ou um filme; disposto sempre a brincar com as crianças, mesmo as menores, a fazer palhaçadas, a gargalhar com elas; mestre disponÃvel, não deixava de atender os alunos, não deixava de comparecer à s festas, a se divertir com eles, a amá-los. Renzo tinha ouvidos sempre prontos a escutar desabafos e a aconselhar – ou calar, quando conselhos não resolvessem -; uma pessoa como não se vê por aÃ. Quem o conheceu sabe, quem não o conheceu já não pode mais.
Nesse sentido, tenho sorte de tê-lo tido por perto por muitos anos. E as centenas de alunos que estiveram em seu funeral também. Os alunos se reunindo para juntar dinheiro para comprar flores, todos aos prantos, é uma cena que não me sairá da memória jamais.
Vai em paz, Renzo, para onde quer que seja. Nós, aqui, estaremos sempre um pouco menos felizes sem a tua presença – ainda que satisfeitos de tê-lo conhecido e estado contigo. Teve gente que não teve essa sorte que tivemos. A eternidade, agora, é a nossa memória.

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